É quando se encerra a Festa do Divino que começam as Cavalhadas. Elas datam de aproximadamente 1826 e representam as batalhas religiosas entre Mouros e Cristãos durante a Invasão da Península Ibérica. Montados em cavalos ricamente ornados, os cavaleiros também trajados à moda tomam conta do palco (o cavalhódromo) onde se encena a batalha que dura três dias e atrai milhares de pessoas. Toda a trama pode ser vista de perto e de modo privilegiado pelos participantes da Maratona Fotográfica, que são credenciados especialmente para o evento.
Do lado de fora, o profano ganha as ruas da centenária cidade. A presença de cavaleiros com exuberantes máscaras com chifres de bois (os mascarados) dá um toque carnavalesco à festa e preenche o cenário com imagens fascinantes que se tornam fonte de inspiração para fotógrafos e cinegrafistas. Trata-se de uma festa riquíssima em cores formas.
As imagens da Festa do Divino Espírito Santo e as Cavalhadas percorrem o mundo, mostrando que a cada novo olhar que se lança sobre a cultura popular, novas interpretações são possíveis porque cada olhar é único e é essa singularidade que a Maratona Fotográfica de Pirenópolis quer resgatar.
Mascarados
Seriam eles uma criação dos antigos negros que, sem poder brincar durante a festa, recobriam todo o corpo com roupas, luvas e máscaras, disfarçando a voz para poderem participar da festa sem serem notados? Seriam eles uma memória ancestral dos clowns das tragédias gregas, que serviam para alegrar a festa, minimizando a tensão dramática do conflito que se encena mais adiante? As origens dos mascarados durante as Cavalhadas são nebulosas e poucos arriscam um palpite.
Certo mesmo é que os mascarados com suas roupas de cores vibrantes e máscaras estilizadas, e feições às vezes medonhas são uma das imagens mais típicas da festa. As máscaras das Cavalhadas já viraram tradição e podem ser encontradas em miniaturas, souvenirs, estampas. Estão por toda parte. Mas o bom mesmo é vê-las feitas em papel marché sobre as cabeças dos cavaleiros que sobem e descem as ruas centenárias fazendo tropel com os guizos atados aos arreios e as imprescindíveis flores de crepom a lhes ornar a figura.
A cada ano, porém, a tradição ganha novas leituras. Os mais jovens hoje usam máscaras de borracha, carnavalescas mesmo, mas procuram manter os corpos totalmente cobertos, inclusive as mãos – sinal de que mantém um pé lá na tradição e outro na modernidade. Com as vozes disfarçadas, atormentam o público pedindo moedas.
Mas para o bom mascarado, o importante é brincar sem se deixar reconhecer. Sem saber quem está sob a indumentária, o mistério só faz aguçar a emoção de vê-los passar como se fossem personagens de um mundo imaginário que encarnam uma inusitada alegria durante as Cavalhadas.


